21 de setembro de 2017

Tirolês: meu Tataravo Pietro Floriani não era Italiano!

Eu nunca escutei meu avô dizer que era italiano. E realmente, ele não era, nem meu tataravô Pietro Floriani havia sido italiano.

Quando os Floriani, Rafaeli, Paternolli e Sandri emigraram para o Brasil em 1878, partiram da região conhecida como Sub-Tirol, pertencente a Áustria. A unificação italiana não havia incluído o Tirol meridional, os italianos desistiram de conquistar a região em 1866 depois que Giuseppe Garibaldi foi derrotado pelos sìzzeri na batalha de Bezzeca, e se tornou parte da Itália somente em 1918 após o final da Primeira Guerra Mundial. Por isto não se deve dizer que nossos antepassados eram italianos, nem que fizeram parte de uma imigração italiana, pois eram Tirolezes, Austríacos! 

A cidade de Rovereto, de onde partiram  Floriani para o Sul do Brasil.
Wälschtirol identifica o Tirol onde se fala italiano e ladino (fonte)
Na parte ao norte do Tirol (Nordtirol) se falava principalmente alemão, e no Südtirol se falava oficialmente o italiano, mas isso não fazia dos nossos antepassados italianos. Na Áustria, especialmente durante o período que formou o extenso império Austro-Húngaro, existiam doze línguas oficiais, entre elas o alemão, o italiano, o tcheco, o esloveno, o polonês, o ucraniano e o romeno. E embora o nível de alfabetização em italiano e alemão fosse mais alto no Tirol do que no resto da Itália, os imigrantes que chegaram ao Brasil falavam principalmente dialetos locais, como o ladino dolomítico, falado ainda hoje em Stivor, Villa Agnedo e Rio dos Cedros (veja mais).

Havia uma tensão social muito grande na região, entre aqueles que desejavam fazer parte da Itália e aqueles que desejavam manter a região autônoma, vinculada à Áustria. Mas o que os estudos recentes demonstram é que os imigrantes trentinos falavam dialetos quase perdidos no tempo, trouxeram uma cultura germânica forjada em oito séculos, tinham grande ligação com Viena e Innsbruck, mantinham afeição ao imperador Francisco José de Habsburgo e se diferenciam dos italianos do Vêneto e da Lombardia, ao ponto de diversos conflitos de colonos italianos e tiroleses ocorreram no sul do Brasil, especialmente no início da Primeira Grande Guerra.


Certamente quando chegaram no Brasil, os tiroleses podiam se diferenciar dos habitantes de Santa Catarina e foram incluídos com os demais "colonos italianos", "gringos", "italianos", entre outros adjetivos. Esta italinidade e o sentimento de pertencimento à pátria italiana foi incentivada pelo governo nacionalista Italiano no começo do século XX, e intensificado pelo fascismo na década de 1930, que buscava acabar com as idéias separatistas que os tiroleses mantinham. Embora o governo de Vargas (Estado Novo) tenha reprimido a expressão da cultura italiana e alemã (veja mais aqui), dialetos como o Ladino e Cimbro foram os que mais perderam. As organizações religiosas, beneficentes e profissionais mantiveram processos de identificação mútua e coesão entre os gringos, mas a cultura tiroleza estava à caminho de ser perdida, e na maior parte, os dialetos foram subistituidos pelo Talian do Vêneto, e o italiano e alemão oficiais. Se não bastasse, na década de 1970 houve uma "trentinização" promovida pelos Círculos Trentinos, que encontrou um vácuo de referencias culturais.

Isto porque a região passou a ser chamada de Trentino-Alto Adige em 1948, e desde 1972 por Região Autônoma do Trentino-alto Ádge. Trentino é oficialmente designado como Provinzia Autonoma de Trent (em Ladino), Autonoma Provinz vo Tria (em Cimbrico) e Autonome Provinz va Trea’t (em Fersental) (fonte).

É claro que nossa vinculação atual é com a Província de Trento, na Itália. Mas é fundamental rever o que pensávamos sobre nosso passado. 



Leia mais em:
Porque a Família Floriani emigrou da Itália para o Brasil?


Recomendo a leitura do site tiroleses.com.br:


Referências:

ALTMAYER, Everton. . Aspectos identitários da imigração tirolesa no Brasil (1859 - 1938). Blumenau em Cadernos, v. 56, p. 55-76, (ISSN 0006-5218) do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina. 2015. Disponível em: https://tiroleses.com.br/2016/04/24/revista-blumenau-em-cadernos/

Otto, Claricia Catolicidades e italianidades: jogos de poder no Médio Vale do Itajaí-Açu e no Sul de Santa Catarina. Tese (doutorado) - Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-graduação em História. http://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/102043 2005

Saquet, Marcos Aurelio Os tempos e os territórios da colonização italiana: o desenvolvimento econômico da Colônia Silveira Martins, RS Tese de Doutorado. Presidente Prudente. [2001]. 304 f. www2.fct.unesp.br/pos/geo/dis_teses/01/01_marcos.pdf


Zanini, Maria Catarina C.; Assis, Gláucia de Oliveira; Beneduzi, Luis Fernando. Ítalo-Brasileiros na Itália no século XXI: "retorno" à terra dos antepassados, impasses e expectativas. REMHU, Rev. Interdiscip. Mobil. Hum., Brasília , v. 21, n. 41, p. 139-162, dez. 2013 . Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1980-85852013000200008&lng=pt&nrm=iso>. 

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